Ainda estou aqui
Cartaz:
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convidadas:
“Ainda estou aqui” e outras obras.
Helena Oliveira e Oliveira.
Família Paiva e ainda estou aqui.
Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o caçula da família. “Ainda estou aqui” é uma película íntima, pautada nas memórias de infância de Marcelo e do adolescente e amigo da família Walter Salles, que revelam minuciosamente a violência durante da ditadura empresarial-cívico-militar no Brasil e, principalmente, a história das famílias que ficam, e respondem a estas lacunas até os dias de hoje.
Foto da família Paiva, retratada em 'Ainda Estou Aqui' - Arquivo pessoal da família disponibilizada pelo filme.
A narrativa do filme se inicia em 1970, seis anos após o golpe militar. Observamos com cuidado o cotidiano da família Paiva e o conflito que se seguiu prontamente ao sequestro do ex -deputado cassado, Rubens Paiva, a mando das autoridades militares. Ao que precipita a lacuna familiar que faz a falta de Rubens (Selton Mello), mas que também exige de Eunice (Fernanda Torres) o afastamento de sua dor em prol do aconchego de seus filhos em meio à crise, na tentativa de assegurar a volta do pai a eles.
Ela, durante sua vida, enfrenta a busca pelo direito ao corpo e ao luto, o que transcende o período histórico do autoritarismo militar, e se opõe à impunidade dos que violentaram não somente a sua família, como também a de 434 mortos e desaparecidos reconhecidos, mas para presidente de comissão, Eugênia Gonzaga, número facilmente passa dos 10 mil. Logo, com o passar do tempo cada vitória ganha uma temporalidade distante, porém descritiva, diferente do início da obra de Salles, na qual o carinho e o íntimo carregam o enredo. Esta essência retorna na última passagem, em 2014, em que em conjunto da família, a protagonista aos 85 anos de idade, relembra a história de seu companheiro ao encarar o Alzheimer.
Cena do filme 'Ainda Estou Aqui', Fernanda Torres como
Eunice Paiva- Divulgação.
A mistura de memórias infantis sem exagero sentimental e o “biográfico verdadeiro", enriquecem a trama ao trazer uma humanidade a família Paiva, seja nos costumes, festejos ou no próprio cotidiano, que aproxima o espectador não somente da obra, como de Rubens e sua família. Nesse sentido, “Ainda estou aqui” não precisa mostrar explicitamente a violência física na qual a família passou, para evocar empatia pelo ocorrido. Esta carga emocional é imprimida pela atuação de Torres, que encara o papel com grandiosidade.
O curta-documentário de 2011, que “Rubens Paiva, desaparecido desde 1971”, dirigido por Sylvio do Amaral Rocha, dirige o foco para Rubens, descrevendo aspectos de sua personalidade, vida e luta, por amigos, familiares e companheiros. Numa série de entrevistas com Plínio de Arruda Sampaio, Fernando Henrique Cardoso, Marcelo Rubens Paiva, Almino Afonso,etc. Uma das falas mais emblemáticas, Beatriz Paiva, fala sobre o sequestro de sua mãe, deixando-a em cárcere no DOI-CODI no Rio de Janeiro por cerca de onze dias.
“O que me deixou mais tensa, digamos assim, mais confusa, foi quando levaram mamãe. Aí ficou uma situação ali de não ter nem pai nem mãe (...) Lembro da mamãe chegar magérrima, assim, super abatida. Ela mal me abraçou, mas senti que ela não conseguia ficar perto da gente, e eu tive a impressão que perdi o pai e a mãe neste momento.” (Beatriz Paiva, 2011).
Estas obras se interligam ao contar um relato não exclusivo aos Paiva, mas comum a uma coletividade brasileira violentada até os dias de hoje pelos rastros da ditadura empresarial-cívico-militar brasileira. E um recorte como este para o cinema hegemônico do país, transmite não apenas um refúgio de histórias sem profundidade sobre guerrilhas em meio à ditadura, na qual não trazem a humanidade destes militantes, mas também um aprofundamento no íntimo alcançado pela violência. Violência essa cometida não somente contra personalidades como o próprio Rubens Paiva, como também a Eunice e seus filhos. Abrindo portas para que narrativas como essa ganhem espaço, e para que não haja impunidade e anistia aos militares e demais mandantes que nunca foram responsabilizados pela opressão e ainda são homenageados, tendo seus nomes em ruas, avenidas e escolas Brasil afora.
Caminhada do silêncio, fonte:https://vladimirherzog.org/tag/caminhada-do-silencio/.
Gildo Macedo Lacerda, presente!
Gildo Macedo Lacerda, nascido em Ituiutaba (MG), foi um militante engajado no movimento estudantil desde jovem. Participou de grêmios estudantis e integrou a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Na clandestinidade, casou-se com a jornalista baiana Mariluce de Sousa Moura. Em 1973, ela engravidou de Tessa. No mesmo ano foram presos em Salvador. Gildo foi transferido para o DOI-CODI em Recife, onde foi torturado até a morte, junto com o companheiro de militância José Carlos Novaes da Mata Machado. A versão oficial alegou um tiroteio, mas testemunhos confirmaram execução sob tortura.
O livro “A revolta das vísceras” de Mariluce Moura, escrito durante a década de 80, revisita de forma afetiva a sua história e a de Gildo. Nele, a jornalista narra a experiência de lidar com o antes e depois do falecimento de seu companheiro enquanto grávida de sua primeira filha.
Já o texto de Tessa Moura Lacerda, “Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, Presente!”, através de uma narrativa cuidadosamente construída, combina elementos biográficos, históricos e afetivos para apresentar não apenas a trajetória de Gildo, mas também o contexto social e político em que ele viveu, a importância da preservação da memória coletiva e da fala. Evidenciando o terceiro elemento, fruto do amor entre Mariluce e Gildo.
Tanto os livros quanto o filme de Walter Salles, falam sobre a imposição da saudade, que quando concebida de forma natural, se inicia na confusão e na dúvida, logo nos encontramos numa completa melancolia e somos dissolvidos em desilusão, então vem a dor e o desejo que se encerra numa nostalgia açucarada. Todavia, para Mariluce, Tessa, família Paiva e outras tantas… Esta saudade vem sem presságio, vem amarga.
Mariluce Moura e Tessa Lacerda, 1974.
“A morte se apresenta numa frase… numa cruel, curta e simples mensagem oral. A morte é revelada só em palavras… poucas e secas… e é a verdade.” (MOURA, Mariluce. A revolta das vísceras: e outros contos. São Paulo; Aretê, outubro de 2023, p.30.
Não há preparo para esta morte, não há preparo para uma violência como a vivida em meio a ditadura. Para a proibição do luto destas famílias, a falta nunca será amenizada ou esquecida. E esta lembrança não se trata de ocupar um espaço de vítima, ressentimento ou vingança. Falar… lembrar, é assumir a tarefa política de lutar contra o esquecimento de uma memória coletiva, que repele a violência cometida. Lembrar é o simples ato de observar o atual na busca de não repetir erros do passado.
O filme "Ainda Estou Aqui", assim como as obras que retratam a história de Gildo Macedo Lacerda e a luta destas famílias, revelam a profundidade das marcas deixadas pela ditadura militar no Brasil, fruto de uma violência sistêmica que ainda não desapareceu por completo. Essas narrativas não apenas denunciam os crimes de sequestro, tortura, assassinato e ocultação de cadáver praticados por agentes do Estado, mas também celebram a resistência das pessoas que ficam que, mesmo diante da dor e da ausência, mantiveram viva a memória de seus entes queridos.
De maneira majestrosa, Mariluce passou a Tessa parte da história que Gildo foi proibido de contar por sua voz. Todavia, ao lembrar, ao passar a mensagem… foi possível que sua neta (Nara, formada na escola viva) tenha dado forma à ilustração do avô presente no livro de sua mãe.
Capa do livro “Pela memória de um paí[s]", com a ilustração de Nara Lacerda Ferreira.
Ao resgatar histórias como as de Rubens Paiva e Gildo Macedo Lacerda, essas obras cumprem um papel essencial na luta contra o esquecimento e na busca por justiça. Elas nos lembram que a saudade imposta pela violência política não é apenas uma dor individual, mas um chamado coletivo para que o passado não se repita. Lembrar, portanto, é um ato de resistência e um compromisso com a verdade.
Direção de Walter Salles em “Ainda estou aqui”.
Sobre o diretor.
Quem é Walter Salles?
Walter Salles é um cineasta brasileiro, nascido em 1956 no Rio de Janeiro. Embora tenha se formado em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), sua paixão pelo cinema o levou a estudar comunicação audiovisual na Universidade do Sul da Califórnia.
Sua carreira cinematográfica é marcada por obras de grande relevância, como "Central do Brasil" (1998) e "Diários de Motocicleta" (2004). Que receberam reconhecimento internacional, chegando a concorrer ao Oscar de melhor atuação para Fernanda Montenegro e melhor filme internacional por “Central do Brasil", em Berlim, recebeu o Urso de Ouro pela película e pela atuação de Fernanda, o Urso de Prata de melhor atriz. Também recebeu o Globo de Ouro de melhor filme internacional.
Em 2024, Walter Salles dirigiu "Ainda Estou Aqui", baseado nas memórias de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice, e retrata a luta de uma mãe para criar seus cinco filhos após o sequestro e assassinato do marido, mas também, revisita as memórias de Walter, que frequentava na adolescência a casa da família.
Além de ter recebido o Globo de Ouro de melhor atriz dramática pela atuação de Fernanda Torres, "Ainda Estou Aqui" foi indicado e vencedor ao Oscar de Melhor Filme Internacional e Melhor Filme,premiações inéditas para o cinema bradileiro. Este sucesso de "Ainda estou aqui” trouxe novamente à tona discussões sobre os crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil, incentivando o debate nacional sobre a importância de enfrentar a violência com a “memória e a fala”.
Walter Salles com "Ainda Estou Aqui", não apenas reafirmou sua posição como um dos cineastas mais importantes do país, mas também contribuiu significativamente para o reconhecimento internacional do cinema brasileiro, trazendo à tona narrativas essenciais para a compreensão de parte da identidade nacional.